22.2.11

Silêncio

O silêncio. A mudez de uma vida suspensa. De repente. Assim. O correr de uma vida interrompida. A pausa dolorosa que não se desmarca automaticamente ao fim de alguns minutos de espera. O sabor amargo da expectativa roubada. Sentir que tudo nos ultrapassa e revolve e a vida nos enrola num turbilhão. Os momentos que nos perseguem tatuados na pele. Os cheiros que nos transportam no tempo e no espaço devolvendo-nos a vida que conhecemos em tão pouco tempo e, contudo, tanta vida! Os traços de um rosto ou um movimento. O silêncio das horas que se arrastam. Os dias e as noites alternam-se e sucedem-se sem que este silêncio se faça ouvir. Um silêncio que grita para além do possível; que se entranha em tudo o que o rodeia; que mascara de normalidade uma vida suspensa. O sorriso apagado e quase irreconhecível do rosto que controlava o tempo no relógio que julgava ser seu. A arrogância de se pretender controlar. Não sabia que a Vida lhe fugia, naquele minuto que controlava. A vida entre parêntesis. Suspensa. A corda frágil e bamba, estendida sobre o abismo. E o silêncio…o silêncio que ecoa em cada tentativa de se abrir através das palavras que ficam mudas e se diluem na intenção de ser. As lágrimas que as acolhem. Este silêncio que ninguém ouve; o silêncio que corrói, alastra, tinge de pranto as linhas da história atirada para o futuro, na expectativa de fazer parte dele. O vazio da perda. A angústia de um «nunca mais» que assombra uma alma de si perdida, de uma alma para quem o «nunca mais» não existe. A dor insuportável das perguntas. O vazio da nada ser, de não mais se saber ser. O riso que parte como a neblina da manhã, sem deixar rasto, misturando-se com o ar irrespirável onde se dilui. O início de um novo dia igual aos outros. Um dia de silêncio. Resíduo do que se foi.

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence
(...)

But my words, like silent raindrops fell
And echoed
In the wells of silence
(S & G)

Don't Leave Me Now

10.2.11

(N)Um só dia

Um dia apenas. Um só dia. Passamos metade das nossas vidas desenhando cenários, equacionando possibilidades, perspectivando realidades, absorvendo do mundo aquilo que achamos que ele nos pode dar. Definimos que tudo está definido. Que somos nós que traçamos as possibilidades. Que nada sairá da rota que definimos. Que nada mais há de novo. Construímos uma vida. Julgamos que é a nossa vida. Ganhamos umas coisas, perdemos outras. Ainda assim, vitoriosos. Et voilá, dizemos, «everything where it belongs». Um dia, um dia apenas. Um dia aparentemente como outro qualquer. Um dia. O que é um dia? Pode ser um dia apenas, ou pode ser o início de tudo. De quê? Do que julgávamos ter, mas não tínhamos; do que julgávamos saber, mas não sabíamos; do que julgávamos controlar, mas não controlávamos. Um dia que passa ao ritmo de todos os dias, pode ser um outro dia. Uma luz. Um flash quase dionisíaco, uma consciência avassaladora do «ainda». Perceber, como que por intermédio de um qualquer truque de sofisticada magia, que estamos num outro plano, num outro universo, numa outra dimensão. E mais: que não há mais outro universo, que nunca houve nem poderá haver. Que está tudo ali…o possível e o impossível, o quase indizível, o nunca antes pensado. Um dia. Um dia pode roubar-nos ao tempo, atirar-nos para o interior de nós mesmos, revelar-nos com uma crueza quase chocante do que somos feitos, do que nos corre nas veias, do que nos habita. Um só dia. Um dia já ele antecedido de um prelúdio revelador de uma realidade ocultada. O prelúdio de um dia, de um depois. Um depois que se mostra o lugar do sempre, do eterno, do inconfundível. Aquela presença exacta do ali. O momento. O momento da revelação. Um rosto que tinge o dia de um sentir excessivo, quase doloroso. Pensamos que sabemos. Pensamos que controlamos. Julgamos saber o que há para saber. Mas um dia. Um dia, apenas precedido de um prelúdio em que a existência se revela no que mais tem de autêntico. A seguir ao prelúdio, o que vem? Vem a revelação do já antecipado, do que se foi desvelando no tempo. Um só dia em que um rosto que se afasta lentamente nos confronta com a angústia sem fim do que já nos pertence e nos foge de todas as formas. Um dia em que percebemos que o tínhamos, nada era. Um dia em que o ondular dos passos no chão frio nos diz que só ali há vida, em que olhar perdido nos indica a direcção. Passamos uma vida inteira respondendo por um nome, fazendo o que devemos, desejando o que é desejável, sonhando com o possível, aspirando ao concretizável. Mas um dia, um dia perdido entre muitos outros e tudo se torna tão claro…uma claridade que fere os olhos de tão intensa, uma claridade que não se perde mesmo quando a noite ameaça aparecer e nos levar para longe, perdidos nos traços de um rosto. Um só dia e eis a Vida que se desenha ante os nossos olhos. Um só dia. Fica tão somente essa certeza: a de que a Vida é ali.