
«O Pai Natal não existe! És uma palerma! Quem põe lá as prendas são os pais!». Foi assim, desta forma cruel, dilacerante e sem anestesia alguma que o meu irmão, um pseudo pré-adolescente de 12 anos, pôs fim às ilusões de uma miúda de 7: eu. Quando olho para trás à procura da primeira grande desilusão, ou da primeira e derradeira vez em que o mundo desabou sobre a minha cabeça, tropeço neste episódio! Aos 7 anos, o pequeno mundo cheio de certezas e de ordem desfazia-se em pedaços sob o olhar atento e quase maquiavélico do meu irmão que assistia à destruição maciça das minhas crenças, como se de uma obra de arte se tratasse, digna de contemplação e de mérito! Podia ter-me preparado…«olha, não achas estranha essa história do Pai Natal?», «ficavas muito triste se descobrisses que ele não existe?», «como é que ele pode existir?». Mas não. Foi a frio. Uma frase terrivelmente castrante dividida em três partes, nada à beira dos cacos em que o meu mundo se reduziu naqueles instantes! E muitas novidades, ao mesmo tempo, nesta história: o Pai Natal que afinal não existe; eu, que sou uma palerma; os meus pais que me enganam. Nem no The Matrix…pelo menos aí o Neo ainda teve a possibilidade de decidir se queria viver no mundo da ilusão ou se queria ver a realidade; quanto a mim, não tive essa sorte…o comprimido vermelho foi-me enfiado pela goela abaixo e nem tive tempo de dizer «ai». De repente, fico sem nada e apenas me pergunto pela mentira em que vivi durante esse tempo. Penso que é possível ser essa a raiz do meu amor pela Filosofia e pelas perguntas, mesmo sem me ter dado conta na altura. «O Pai Natal não existe» equivale a «o que é que eu tenho andado a fazer?», «qual é o sentido disto tudo?», «o que é a verdade?», «será que ela existe?», «quem tem o direito de nos roubar as ilusões?». Um rol imenso de perguntas intrinsecamente filosóficas que invadiram a minha cabeça esvaziada dos natais felizes em que a vida fazia sentido!!! Acho que depois de descobrir assim, a cru, que o pai Natal não existe, aprendi a relativizar as desilusões e a gerir mais inteligentemente as expectativas frustradas!!! Em suma, um miúdo de 12 anos pode arruinar-nos a vida lá de cima da sua falta de bom senso e piedade!! E o pior de tudo é que tem cúmplices!!! De uma só assentada, três terríveis conclusões com um efeito devastador: 1) os meus pais são adultos, supostamente modelos para o meu comportamento e mentem; 2) O Pai Natal não existe e tenho vivido numa enorme mentira e, portanto, por arrasto, que posso saber eu sobre o que julgo saber?; 3) eu, uma miúda que se considerava atenta, inteligente e esperta, em quem tantos amigos se reviam, sou uma palerma…quem sou eu afinal? O que sou eu?
Começou talvez assim o difícil e cativante hábito de «varrer» as coisas à procura de respostas.