15.12.11

Xmastrix


«O Pai Natal não existe! És uma palerma! Quem põe lá as prendas são os pais!». Foi assim, desta forma cruel, dilacerante e sem anestesia alguma que o meu irmão, um pseudo pré-adolescente de 12 anos, pôs fim às ilusões de uma miúda de 7: eu. Quando olho para trás à procura da primeira grande desilusão, ou da primeira e derradeira vez em que o mundo desabou sobre a minha cabeça, tropeço neste episódio! Aos 7 anos, o pequeno mundo cheio de certezas e de ordem desfazia-se em pedaços sob o olhar atento e quase maquiavélico do meu irmão que assistia à destruição maciça das minhas crenças, como se de uma obra de arte se tratasse, digna de contemplação e de mérito! Podia ter-me preparado…«olha, não achas estranha essa história do Pai Natal?», «ficavas muito triste se descobrisses que ele não existe?», «como é que ele pode existir?». Mas não. Foi a frio. Uma frase terrivelmente castrante dividida em três partes, nada à beira dos cacos em que o meu mundo se reduziu naqueles instantes! E muitas novidades, ao mesmo tempo, nesta história: o Pai Natal que afinal não existe; eu, que sou uma palerma; os meus pais que me enganam. Nem no The Matrix…pelo menos aí o Neo ainda teve a possibilidade de decidir se queria viver no mundo da ilusão ou se queria ver a realidade; quanto a mim, não tive essa sorte…o comprimido vermelho foi-me enfiado pela goela abaixo e nem tive tempo de dizer «ai». De repente, fico sem nada e apenas me pergunto pela mentira em que vivi durante esse tempo. Penso que é possível ser essa a raiz do meu amor pela Filosofia e pelas perguntas, mesmo sem me ter dado conta na altura. «O Pai Natal não existe» equivale a «o que é que eu tenho andado a fazer?», «qual é o sentido disto tudo?», «o que é a verdade?», «será que ela existe?», «quem tem o direito de nos roubar as ilusões?». Um rol imenso de perguntas intrinsecamente filosóficas que invadiram a minha cabeça esvaziada dos natais felizes em que a vida fazia sentido!!! Acho que depois de descobrir assim, a cru, que o pai Natal não existe, aprendi a relativizar as desilusões e a gerir mais inteligentemente as expectativas frustradas!!! Em suma, um miúdo de 12 anos pode arruinar-nos a vida lá de cima da sua falta de bom senso e piedade!! E o pior de tudo é que tem cúmplices!!! De uma só assentada, três terríveis conclusões com um efeito devastador: 1) os meus pais são adultos, supostamente modelos para o meu comportamento e mentem; 2) O Pai Natal não existe e tenho vivido numa enorme mentira e, portanto, por arrasto, que posso saber eu sobre o que julgo saber?; 3) eu, uma miúda que se considerava atenta, inteligente e esperta, em quem tantos amigos se reviam, sou uma palerma…quem sou eu afinal? O que sou eu?
Começou talvez assim o difícil e cativante hábito de «varrer» as coisas à procura de respostas.

7.12.11

O Medo



Tememos tantas coisas e tantas outras julgamos ou dizemos não temer por entendermos ser um qualquer sinal de fraqueza quando, no fundo, a única coisa a temer somos mesmo nós próprios. Porquê? Vejamos um exemplo: tememos falhar ou tememos errar. Entendemos que há uma dimensão da falha ou do erro que está fora do nosso controle e tememos não ter condições para sermos bem sucedidos, certo? Todavia em função de quê e em que proporção se define o erro ou a falha? Em última análise, em função de nós mesmos, já que somos nós que definimos o patamar que corresponde ao êxito e a linha abaixo da qual estamos no domínio do fracasso. Definimos o que é erro e o que é falha em função das expectativas que depositamos nas coisas que fazemos e em função do que entendemos ser bom ou mau e do que os outros esperam de nós. Se eu, por exemplo, prometer emprestar um livro a uma amiga com quem me vou encontrar e me esquecer de o levar, isso só é uma falha na exata medida em que eu tinha a expectativa de levar o livro e não me esquecer e, a amiga, a expectativa de que eu o levasse. Sentir-me mal por me ter esquecido e sentir que falhei dependem disto. Se não apostasse na quase impossibilidade de me esquecer não sentiria tão rotundamente a falha. Não estou, com isto, a querer dizer que o fracasso ou o sucesso estão, deste modo, entregues à pura subjetividade, longe de regras e convenções! De modo algum…o que estou a querer dizer é que a dimensão subjetiva do fracasso ou do êxito dependem, em muito, de nós. E o que é que isto tem que ver com medo? Tudo. Somos nós que definimos, em função de tudo isto, os fantasmas que nos habitam, ou os monstros que nos corroem. Fomos nós que os deixámos entrar, ganhar terreno, ditar as regras. Ou fomos nós que convencidos da incapacidade de ultrapassar fracassos e frustrações, fomos alimentando os pequenos monstros que cresceram à nossa revelia. E tudo sempre em virtude de que previamente definimos como metas, do que estabelecemos como expectativas tantas e tantas vezes minadas pela insegurança, pelo medo e pelas expectativas dos outros em relação a nós. E os fantasmas chamam fantasmas, e os medos chamam medos numa catadupa cumulativa que toma forma em nós sem nos darmos conta. E é de nós que temos de ter medo, porque é no mais fundo de nós que ele reside e é do nosso interior que ele se alimenta.