O silêncio. A mudez de uma vida suspensa. De repente. Assim. O correr de uma vida interrompida. A pausa dolorosa que não se desmarca automaticamente ao fim de alguns minutos de espera. O sabor amargo da expectativa roubada. Sentir que tudo nos ultrapassa e revolve e a vida nos enrola num turbilhão. Os momentos que nos perseguem tatuados na pele. Os cheiros que nos transportam no tempo e no espaço devolvendo-nos a vida que conhecemos em tão pouco tempo e, contudo, tanta vida! Os traços de um rosto ou um movimento. O silêncio das horas que se arrastam. Os dias e as noites alternam-se e sucedem-se sem que este silêncio se faça ouvir. Um silêncio que grita para além do possível; que se entranha em tudo o que o rodeia; que mascara de normalidade uma vida suspensa. O sorriso apagado e quase irreconhecível do rosto que controlava o tempo no relógio que julgava ser seu. A arrogância de se pretender controlar. Não sabia que a Vida lhe fugia, naquele minuto que controlava. A vida entre parêntesis. Suspensa. A corda frágil e bamba, estendida sobre o abismo. E o silêncio…o silêncio que ecoa em cada tentativa de se abrir através das palavras que ficam mudas e se diluem na intenção de ser. As lágrimas que as acolhem. Este silêncio que ninguém ouve; o silêncio que corrói, alastra, tinge de pranto as linhas da história atirada para o futuro, na expectativa de fazer parte dele. O vazio da perda. A angústia de um «nunca mais» que assombra uma alma de si perdida, de uma alma para quem o «nunca mais» não existe. A dor insuportável das perguntas. O vazio da nada ser, de não mais se saber ser. O riso que parte como a neblina da manhã, sem deixar rasto, misturando-se com o ar irrespirável onde se dilui. O início de um novo dia igual aos outros. Um dia de silêncio. Resíduo do que se foi.
Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence
(...)
But my words, like silent raindrops fell
And echoed
In the wells of silence
(S & G)
10 comments:
Já li as suas "Correntes" :-)
Adorei professora, foi um livro que me prendeu ali durante umas horas seguidas, é fantástico. Muitos parabéns!!!
Posso não entender muito disso de escrever (A) mas gosto de ler aquilo que escreve. Em pequenas frases consegue dizer muitas coisas, algumas que nos deixam a pensar :D como este texto aqui :-)
Umas correntes que me prenderam hehehehe
australiaempreto
Obrigada, Daniela!! Que bom!! E olha, a música que gostas tanto de Anathema é, como deves ter reparado, a «banda sonora» do livro!...
;-)
é sim, aquela logo que aparece nas primeiras páginas :D
eu dps gostava que a professora mo assinasse :))
Claro!!! Leva-o! Tenho todo o gosto em escrever uma coisa especial!!!
O silêncio que ninguém quer ouvir, "o vazio da perda"... o pior silêncio.
A escrita sempre fantástica :)
"In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone"
(...)
"People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share"
Beautiful sound of silence, sometimes I think that you talk too much.
Joan...do I? maybe you're right...maybe I talk too much...
It's not you, it's the silence, the silence speaks sometimes, pretty loud...
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