18.3.11

Escada

Ainda permanece nos dedos o toque dos caracóis de Ana. Olha para as suas mãos demoradamente. Vira-as para um lado e para o outro.
Estica os dedos. Aproxima-os do rosto. A pele já não é esticada como outrora. Marcas do tempo. Fecha a mão e detém-se nas linhas que os ossos desenham, querendo romper a pele. Umas vidraças e, lá ao fundo, o mar revolto de inverno. Um sorriso e os cabelos. Agora tem isto: uma tira de papel. E uma simples tira de papel traz-lhe a vida e a força revolta dos caracóis de Ana. O perfume que se espalha no ar e a tinge de Vida. A respiração suspende-se como o tempo para, de seguida se retomar, profunda, longa, como se quisesse que aquele aroma lhe inundasse os pulmões e percorresse as suas veias entregando-a a uma vertigem que a transporta para lá das cortinas do tempo. E este aroma que se mistura com o cabelo, mesmo ali, na dança suave dos seus dedos pequenos, devolve-lhe o sentido e entrega-a a uma nostalgia sem fim, à saudade de tudo, aos momentos roubados ao tempo que arrasta consigo. Ana

2 comments:

Bruno Carvalho said...

Bonito texto :)
bjs

IM said...

Obrigada, Bruno...coisas que a memória devolve...