É inevitável. Por feitio, defeito ou formação, há questões que voltam sistematicamente como um boomerang. E por mais que leia, reflita, estude, elas mantêm-se acesas e assaltam-se o pensamento nas mais variadas situações, desde uma fila de trânsito a um corredor do hipermercado. Como chegamos ao outro? O que é que de nós emerge num contacto? Num olhar? O que fica no outro com a minha «aparição»? O que «aparece»? «Aparece» vem de «parere» que significa «chegar à vista». O que «chega à vista» e mais…o que vai além dela? Até que ponto «transparecemos» o que somos? Sim, «transparecer» tem a mesma origem…«transparere», ou seja, «mostrar a luz através, deixar a luz atravessar» («trans» significa «através»). Que luz? E até onde chega ela? O que ilumina? O oculta? É tão ilusório querer chegar ao outro, quando mal sabemos a direção dos nossos braços! A sensação de ler o outro nos gestos, no não dito, na sugestão…mas o que nos aparece? Que essência? Que parte? Que resto de mundo? Somos tão eternamente estranhos a nós mesmos, mas achamos que podemos aparecer!!! Até usamos de forma tão leviana esta palavra no nosso dia a dia…«aparece!», dizemos a alguém que já não víamos há algum tempo, ou então, «nunca mais apareceste!!!!», dizemos a quem «desapareceu». Mas poderemos aparecer? Em alguma situação? É curioso esta palavra estar ligada ao sentido da visão, sentido ao qual damos normalmente tanto crédito, sentido que usamos maioritariamente, mas que é, sem dúvida, um dos mais suscetíveis de equívoco. E é daí que também vem a ideia do fantasma (aparição), aquele que estava oculto mas que agora se revela…a aparição…se revela à vista, se torna visível. Mas que captamos nós nessa «aparição» do outro quando nós próprios precisamos de «aparecer»?? Nada como «desaparecer» aqui deste texto ou os leitores deixam de «aparecer» por aqui!!
4 comments:
"O que fica no outro com a minha «aparição»?" ehehe, hoje na aula de ed. física a professora apareceu-me por trás na mesma altura em que comecei a falar com o Mica e eu senti o seu perfume e pensei, assim por breves instantes "que raios, o miqa tem um perfume igual ao da stora de filosofia" ahahahaha
Para que saiba, a sua "aparição" lá na aula saiu-nos cara!! As suas energias forma lá perturbar as energias do ginásio, ou algo assim, só sei que eu tive de ficar no balneario a por gelo no dedo que agora está todo inchado e corre o risco de ficar torto :o a Diana aleijou-se na perna, a Ana ficou mal-disposta e a Joana deslocou um musculo qualquer... tá a ver???? eheheheheheehe
(pois, descobriu-se assim que o Michael usa o mesmo perfume que eu...não havia necessidade...eheheheheh)
O «cuêêê»?????? A minha «aparição»??? Vocês é que estão todos rotos, todos rebentados...fraquinhos...fraquinhos...partem dedos, pernas, fazem entorses só um uma rajadita de vento...tssssssss...que desgraça...eu acho que isso é falta da Filosofia que vos tornava mais fortes...agora estão assim, uns franganitos!!!! ehehehe...assustaram-se com a minha «aparição» e desfizeram-se em cacos...que desgraça!...ehehehehhehe.....
(as melhoras aí do dedito..!!!)
Texto fantástico mais uma vez, com a essência bem IM :)
A verdade é mesmo essa, "Somos tão eternamente estranhos a nós mesmos, mas achamos que podemos aparecer!!".
Acho que estes pensamentos são intemporais, a qualquer altura nos questionamos de quem somos, o que é ser, porque ser, ...
Mas a verdade é que o mais belo, o sublime, não surge objectivamente, há sempre uma grande, gigante, margem pela qual andamos todos a navegar, a procurar... Julgo eu
Este texto veio mesmo a propósito!!!
Todos rotos? O meu pai diz o mesmo! Mas eu cá acho é que nós somos sensíveis não é rotos!! Vá... Eheh
Mas olhe que a stôra Fátima puxa bem... Ai se puxa. Na primeira aula ninguém podia das pernas no sábado, ah pois!!
A stôra entrou lá e nós ficamos partidos de medo (eheheh, nem faz mal a uma mosca).
Beijinhos
Joan
Este tema dava discussão durante uma vida inteira, e até depois dela uma vês que "desapareceríamos"... é uma boa questão, na verdade, acho que apenas nós humanos, conhecemos o "desaparecer" e o "aparecer". Na verdade, nós existimos sempre, não neste corpo, mas existimos. E é neste corpo que aparecemos e desaparecemos. Talvez nas nossas "outras" formas de vida sejamos capazes de "transparecer". O que importa neste questão é: os nossos olhos não vêem tudo (estão bem longe disso...) e por isso estamos constantemente a aparecer e a desaparecer, nos próprios necessitamos de por vezes "desaparecer" para depois voltarmos a "aparecer" nem nunca chegar, na verdade, a fazê-lo. Estamos sempre em todo o lado, ao mesmo tempo que nunca estamos. Estamos embrenhados no pensamento e também a andar na rua, a caminhar... e a desaparecer ao virar da esquina, para aparecer do outro lado. Para aquela senhora da bengala desaparecemos e para a criança que ia a sair da escola aparecemos, mas no fundo sempre estivemos lá, as pessoas é que não nos viam... já nós, vimo-nos sempre, mas uma anos mais tarde quando a memória dessa curva "desapaerecer" já não nos vamos lembrar e vamos aparecer de novo no local. É sempre assim, estamos sempre em todo o lado e ao mesmo tempo nunca estamos, e capacidade de não ver constantemente, de não ver para além do corpo, é terrivelmente humana.
És tão complicada "jabalina" ahaha
beijinhos,
SM
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