Um cansaço. Um tédio. Um entorpecimento generalizado. Uma incapacidade de pensar claro. Uma espécie de anestesia mal dada que corta a relação com o mundo. Estou completamente descolada da realidade. Quase fantasmagórica. Etérea. Vinda não sei de onde. Os sons chegam-me diluídos, deturpados como se estivesse imersa. O pensamento está desfeito em franjas desconexas que se procuram entrelaçar. Os olhos ardem-me e pulso está basicamente indetectável. A cabeça parece-me fora do corpo e o corpo fora de mim. A caneta desliza a custo no papel desenhando uma caligrafia completamente imperceptível. Isto deve ser o que de mais perto existe de um mergulho num qualquer estado abstracto de consciência. Tudo me pesa, hoje. Como se o mundo tivesse decidido descansar sobre os meus ombros. Tudo me parece fora do sítio. Desalinhado. Imensamente turvo. Os livros nas estantes. Assimétricos. Os papéis espalhados na secretária à espera de ordem para se enfiarem em qualquer sítio longe da vista. Os dedos deslizam quase surdos sobre o teclado. Sem precisão, trapalhões e negligentes. Descansam em teclas vizinhas tornando caótica a escrita. Arrastada. Monótona. Repetitiva. Senseless.
2 comments:
Apesar do cansaço e do sentimento que sente, tem aqui um belíssimo texto. Maravilhoso mesmo! Tão bem explícito, que mais directo não expressaria o que quer dizer. Não me sinto assim, mas já senti, e se na altura eu quisesse exprimir alguma coisa, seria através destas palavras.
Agora só um aparte: "A caneta desliza a custo no papel desenhando uma caligrafia completamente imperceptível."????? LAmento dizer-lhe, gosto muito da sua caligrafia, mas ela é sempre imperceptível ou, pelo menos, ilegível eheheheh (estou a ser mazinha)
Muito obrigada, sandrinha!
;-))
essa do aparte é que ficou mal...ehehehehehhe...vais ter muitos amigos, vais, vais...ehehehehe..ou melhor, vais ter muitas tias...deixa-te andar, deixa-te andar...lolololololol...
A minha caligrafia é exemplar, irrepreensível, estupidamente perfeita e legível...eehhehehe
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