24.4.11

23 km de sentido


De manhã. Não muito cedo, mas ainda cedo. Saio para correr. Cruzo-me com pessoas que se dirigem ou para a missa, ou para o cemitério. De roupas novas engomadas, enfeitiçadas pela crença e deliciosamente enganadas e perdidas: as primeiras, porque procuram deus onde ele não está e lhe pedem o que elas não procuram com as próprias mãos; as segundas, porque acreditam que os seus entes queridos estão entre aqueles muros. Quase uma heresia passar a correr por entre estas pessoas que me olham desconfiadas. «Esta aqui anda perdida», pensarão. Claro que sim! A diferença é que eu sei disso e eles não
Não saio, desta vez, com destino nem distância marcados, mas apenas um objectivo: superar-me. Sempre. Este tempo de corrida é o tempo da liberdade por excelência. Sentir o chão ficar para trás sob a passada rápida dos meus pés quando How To Destroy Angels (que irónico!), no mp4, marca o ritmo e define o horizonte: mais além. É ali, naquele tempo, que mente e corpo se unem com um único objectivo: o de se entregarem ao limite, lá onde o sofrimento está apenas nas minhas mãos e onde a entrega é a opção genuína e solitária. Não vacilar. Não ceder. Menos tempo. Maior distância. Mais equilíbrio. Mais ritmo. O vento dificulta a passada e o suor escorre pelo rosto e pelos braços, deixando uns pingos como rasto. 23 km de sentido e de esforço de superação, marca do poder da determinação. Há sentido em 23km. Nem que ele fique aí encerrado, preso à passada e aos pés. «A dor é inevitável, mas o sofrimento é uma opção», dizia Murakami.



2 comments:

Ana said...

Excelente. Tem que se lhe diga, mas fica para outra altura :)

- inkheart said...
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