Caminhava em passos largos e rápidos pelo passadiço da praia. O suor já lhe escorria pelo rosto e pelo peito e os braços suados brilhavam ao sol. Estava muito quente e abafado. Estava quase lá. Sabia que estava quase lá. Um pouco mais à frente. Exacto. Ali. Lá estava ele…o campo de vólei e o banco de madeira. Abrandou o passo. Sentiu os olhos a inundarem-se de lágrimas e o coração a disparar. Ironicamente, era esta a música que saía do seu mp4…esta, entre tantas outras que poderiam estar naquele momento preciso a tocar. Ficou parada a olhar o banco. Ali, onde a vida tinha sido dita e revistada, analisada, decomposta, sentida, falada, antecipada, projectada, prometida. Ali, onde entre lágrimas e sorrisos se teceram pactos, alianças eternas, sonhos adiados, mas ainda vivos. Ali, onde acreditara nas palavras…as palavras que haveriam de morrer como as ondas, ali mesmo a seu lado, morriam na areia. Tão altivas, tão seguras, a desfazerem-se em nada, em breves restos de espuma que sobrevive uns segundos na superfície da areia. Se quisesse agarrá-las não conseguiria…desfazer-se-iam em espuma breve, em desilusão. Naquele banco, apesar de tudo, havia nascido uma esperança qualquer, aquele sentir imenso e a certeza ingénua (quão ingénua, quão ignorante) de que a vida saberia tecer as linhas necessárias a seu tempo. Mas não. E as palavras morreram assim, tão breves, tão efémeras, engolidas pela areia. E ficou tudo ali naquele banco feito de madeira. Não chegou a sentar-se no banco. Ergueu a cabeça, limpou as lágrimas e acelerou de novo o passo. Pode ser que um dia seja apenas e só um banco que já nada tenha para lhe dizer. E continuou a andar…com um nó na garganta.

4 comments:
...All the difference.
Tudo vale pelo que num momento se faz, se diz e acima de tudo se sente. Mas mudamos a passos largos com o passar dos dias e das areias. E até mesmo o banco mudará. Resta-nos perceber como acertar o passo com a mudança... oh - e com que frequência não percebemos mesmo nada?!...
Excelente texto IM, como sempre. Só isso não muda! eheh
;-)
Obrigada, Tita...«e até mesmo o banco mudará»...who knows...
Mesmo que o banco fique diferente, você conseguirá identificá-lo sempre ... pelo cheiro, pelas memórias, por toda a história que carrega ...... ali. num simples(?) banco.
Post a Comment