19.4.11

Nó Cego


O nó cego é um daqueles nós que em criança nos ensinaram a não fazer, porque é um nó extremamente instável que tanto pode facilmente soltar-se como, ao invés, se tornar irreversível, impossível de desatar, ou seja, quer num caso quer no outro, não cumpre a sua função: no primeiro, nada chega a atar com segurança; no segundo, não permite libertar o que se atou. Deveríamos dar sempre nós simples . Estes são sempre reversíveis e cumprem a sua função. E isto deveria aplicar-se a tudo na vida, a tudo o que atamos, desde o cordão de um sapato, a uma linha, ou a uma pessoa, ou a um sentimento, uma ideia. Todavia, por motivos vários que levariam anos a discutir, damos por nós a tecer nós cegos numa versão terrivelmente definitiva. Damos nós que não se desatam. Estragamos o atacador do sapato que, num acto de desespero cortamos. Damos um nó na linha que, num acesso de raiva arrancamos com os dentes. Mesmo assim, não foi o nó que desatámos, a mas a nossa impossibilidade de o desatar. Arrancamo-lo daquele sítio, mas ele não se desatou. Todavia, esta estratégia não é aplicável às ideias, aos sentimentos, às pessoas. Neste caso não conseguimos cortar coisa alguma, embora possamos ter a ilusão de o podermos fazer, fazendo de conta que esses nós não existem. Mas existem. Estão lá e não se desatam. Como uma sombra perseguem-nos para todo o lado e, como uma sombra, não são visíveis nem para nós, nem para os outros, mas nem por isso menos presentes. E não adianta muito nos detestarmos pelos nós cegos que damos, por termos acreditado e nos sentirmos desiludidos pelas expectativas que (nós) criámos. Podíamos não ter atado coisa alguma. Mas atámos, com a segurança ingénua dos nossos dedos, e o nó é cego. Resta-nos aprender alguma coisa com isso. Resta-nos aprender a não dar nós ou a não nos aventurarmos para além dos nós simples que cumprem a sua função. Não nos podemos libertar dos nós cegos, porque não temos como desatá-los.

9 comments:

daniela fernandes said...

weird? why? :o

daniela fernandes said...

hm, eu percebi "estranho".
É! às vezes andámos tão mal que dizemos assim umas coisas xs já é antigo, se fosse agora não conseguia escrever nada parecido (: (e ainda bem!)

Adorei este texto do nó cego! Fantástica a ideia de comparar os nós às pessoas ahahaha

IM said...

Obrigada, Daniela...mas não é tanto comparar os nós às pessoas, mas antes ao que sentimos por elas. Há determinado tipo de sentimentos que nunca, mas NUNCA conseguiremos arrancar de dentro de nós. Estão tatuados na nossa pele, na nossa alma, na nossa vida.

daniela fernandes said...

A SÉRIO? :o
quero uma visita guiada a essa biblioteca então ahahahaha :p

Ana said...

E o nó cego de quem ata na convicção cega de não o querer desatar? Poderia até dizer-se, no (des)contexto de um lorem impsum, que "nó cego é um nó que não vê, e o que os olhos não vêem, o coração não sente", mas lá porque é cego, não quer dizer que não sinta em cada fibra da sua corda todas as recordações que foram canalizadas no intuito de o atar.
Creio que há coisas que estão melhor atadas do que soltas (e outras que devem estar atadas, por força a não podermos voltar a reavê-las, mesmo quando as desejamos), ou estaríamos a correr o risco de tropeçar à sua passagem. Não há nada como prender as pontas soltas e criar novas nas suas terminações. Os nós ficam, mas o caminho estende-se.

Ana Lopo

Ana said...

Já agora, bonita reflexão! É sempre agradável visitar o site.

Beijinho

Sandra said...

Um belo texto e uma bela comparação. Sem dúvida de acordo. Muito difícil de aplicar... Resta tentar e darmos o nosso melhor todos os dias (embora às vezes o nosso melhor seja o pior de nós que nos leva precisamente a complicar o nó)...

IM said...

Ana, que saudades de te «ver» por aqui!!!!! Andas «perdida» em Coimbra, só pode!!! Como te compreendo!!! eheheh..na verdade «há coisas que estão melhor atadas do que soltas», mas...e se as quisermos soltar??????

Sandrinha, querida sobrinha, como está tão damn certo o teu parêntesis!!!!!!

- inkheart said...

Grande .... enorme ... Reflexão ... Já é (praí) a terceira vez que o leio e, de cada vez, há sempre algo novo ... estas palavras são o suficiente para ficarmos uma noite em claro a pensar sobre os nós (cegos) ...