Que é que há de impensável no que adiante eu "penso"? Não é fácil ou possível sabê-lo, justamente porque é impensável e como tal se me identifica com o pensamento. (...) Assim, o impensável dos textos que se seguem é o que sou enquanto penso e o infinito do que fui e que pensa em mim. (Vírgilio Ferreira, Pensar)
30.4.11
27.4.11
In Darkness Let Me Dwell
"possibly the most perfect song ever written in the English language"..."mysterious"..."awkward"....uma interpretação fora de série...daquelas que se entranham na pele...na alma...darkness and silence...who dares to listen?...
26.4.11
Apenas nada
Entre ter tudo e não ter nada, nem sempre há meio-termo, porque o meio-termo acaba por tender para o tudo, quando tudo o que nos espera é apenas nada.
Às vezes não é possível recuar, não é possível voltar atrás, porque já se percorreu um longo caminho. Às vezes não é possível voltar ao início, antes de tudo Ser, à origem, porque já não somos os mesmos do início, da origem, porque da origem se fez caminho e do caminho nasceram as diferenças.
Olhamos para o caminho percorrido e sabemos que nunca, em caso algum, podemos percorrê-lo no sentido inverso. Sabemos, igualmente, que nada há à nossa frente. Este é o ponto da imobilidade.
Não podemos recuperar o que tínhamos, porque o que temos agora é tão maior do que o que tínhamos e nunca teremos o que queríamos. É com este peso, quase insuportável, adensado por visões diferentes do que é sentir, que nascem os dias que se vêem morrer no horizonte sempre iguais.
Não há meio-termo. Tendemos, inevitavelmente, para o tudo, quando tudo o que nos espera é nada.
O caminho faz-se agora da consciência acordada do sentir que se carrega. O por fazer, o por dizer, o por ser, marcam o passo lento dos pés doridos na calçada íngreme, onde o sonho longínquo ainda faz nascer as lágrimas que se perdem na nostalgia do que não foi.
25.4.11
Não
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra (...)
(A. Campos)
24.4.11
23 km de sentido
De manhã. Não muito cedo, mas ainda cedo. Saio para correr. Cruzo-me com pessoas que se dirigem ou para a missa, ou para o cemitério. De roupas novas engomadas, enfeitiçadas pela crença e deliciosamente enganadas e perdidas: as primeiras, porque procuram deus onde ele não está e lhe pedem o que elas não procuram com as próprias mãos; as segundas, porque acreditam que os seus entes queridos estão entre aqueles muros. Quase uma heresia passar a correr por entre estas pessoas que me olham desconfiadas. «Esta aqui anda perdida», pensarão. Claro que sim! A diferença é que eu sei disso e eles não
Não saio, desta vez, com destino nem distância marcados, mas apenas um objectivo: superar-me. Sempre. Este tempo de corrida é o tempo da liberdade por excelência. Sentir o chão ficar para trás sob a passada rápida dos meus pés quando How To Destroy Angels (que irónico!), no mp4, marca o ritmo e define o horizonte: mais além. É ali, naquele tempo, que mente e corpo se unem com um único objectivo: o de se entregarem ao limite, lá onde o sofrimento está apenas nas minhas mãos e onde a entrega é a opção genuína e solitária. Não vacilar. Não ceder. Menos tempo. Maior distância. Mais equilíbrio. Mais ritmo. O vento dificulta a passada e o suor escorre pelo rosto e pelos braços, deixando uns pingos como rasto. 23 km de sentido e de esforço de superação, marca do poder da determinação. Há sentido em 23km. Nem que ele fique aí encerrado, preso à passada e aos pés. «A dor é inevitável, mas o sofrimento é uma opção», dizia Murakami.
Não saio, desta vez, com destino nem distância marcados, mas apenas um objectivo: superar-me. Sempre. Este tempo de corrida é o tempo da liberdade por excelência. Sentir o chão ficar para trás sob a passada rápida dos meus pés quando How To Destroy Angels (que irónico!), no mp4, marca o ritmo e define o horizonte: mais além. É ali, naquele tempo, que mente e corpo se unem com um único objectivo: o de se entregarem ao limite, lá onde o sofrimento está apenas nas minhas mãos e onde a entrega é a opção genuína e solitária. Não vacilar. Não ceder. Menos tempo. Maior distância. Mais equilíbrio. Mais ritmo. O vento dificulta a passada e o suor escorre pelo rosto e pelos braços, deixando uns pingos como rasto. 23 km de sentido e de esforço de superação, marca do poder da determinação. Há sentido em 23km. Nem que ele fique aí encerrado, preso à passada e aos pés. «A dor é inevitável, mas o sofrimento é uma opção», dizia Murakami.
23.4.11
21.4.11
19.4.11
Nó Cego
O nó cego é um daqueles nós que em criança nos ensinaram a não fazer, porque é um nó extremamente instável que tanto pode facilmente soltar-se como, ao invés, se tornar irreversível, impossível de desatar, ou seja, quer num caso quer no outro, não cumpre a sua função: no primeiro, nada chega a atar com segurança; no segundo, não permite libertar o que se atou. Deveríamos dar sempre nós simples . Estes são sempre reversíveis e cumprem a sua função. E isto deveria aplicar-se a tudo na vida, a tudo o que atamos, desde o cordão de um sapato, a uma linha, ou a uma pessoa, ou a um sentimento, uma ideia. Todavia, por motivos vários que levariam anos a discutir, damos por nós a tecer nós cegos numa versão terrivelmente definitiva. Damos nós que não se desatam. Estragamos o atacador do sapato que, num acto de desespero cortamos. Damos um nó na linha que, num acesso de raiva arrancamos com os dentes. Mesmo assim, não foi o nó que desatámos, a mas a nossa impossibilidade de o desatar. Arrancamo-lo daquele sítio, mas ele não se desatou. Todavia, esta estratégia não é aplicável às ideias, aos sentimentos, às pessoas. Neste caso não conseguimos cortar coisa alguma, embora possamos ter a ilusão de o podermos fazer, fazendo de conta que esses nós não existem. Mas existem. Estão lá e não se desatam. Como uma sombra perseguem-nos para todo o lado e, como uma sombra, não são visíveis nem para nós, nem para os outros, mas nem por isso menos presentes. E não adianta muito nos detestarmos pelos nós cegos que damos, por termos acreditado e nos sentirmos desiludidos pelas expectativas que (nós) criámos. Podíamos não ter atado coisa alguma. Mas atámos, com a segurança ingénua dos nossos dedos, e o nó é cego. Resta-nos aprender alguma coisa com isso. Resta-nos aprender a não dar nós ou a não nos aventurarmos para além dos nós simples que cumprem a sua função. Não nos podemos libertar dos nós cegos, porque não temos como desatá-los.
18.4.11
17.4.11
How much difference does it make?...
Caminhava em passos largos e rápidos pelo passadiço da praia. O suor já lhe escorria pelo rosto e pelo peito e os braços suados brilhavam ao sol. Estava muito quente e abafado. Estava quase lá. Sabia que estava quase lá. Um pouco mais à frente. Exacto. Ali. Lá estava ele…o campo de vólei e o banco de madeira. Abrandou o passo. Sentiu os olhos a inundarem-se de lágrimas e o coração a disparar. Ironicamente, era esta a música que saía do seu mp4…esta, entre tantas outras que poderiam estar naquele momento preciso a tocar. Ficou parada a olhar o banco. Ali, onde a vida tinha sido dita e revistada, analisada, decomposta, sentida, falada, antecipada, projectada, prometida. Ali, onde entre lágrimas e sorrisos se teceram pactos, alianças eternas, sonhos adiados, mas ainda vivos. Ali, onde acreditara nas palavras…as palavras que haveriam de morrer como as ondas, ali mesmo a seu lado, morriam na areia. Tão altivas, tão seguras, a desfazerem-se em nada, em breves restos de espuma que sobrevive uns segundos na superfície da areia. Se quisesse agarrá-las não conseguiria…desfazer-se-iam em espuma breve, em desilusão. Naquele banco, apesar de tudo, havia nascido uma esperança qualquer, aquele sentir imenso e a certeza ingénua (quão ingénua, quão ignorante) de que a vida saberia tecer as linhas necessárias a seu tempo. Mas não. E as palavras morreram assim, tão breves, tão efémeras, engolidas pela areia. E ficou tudo ali naquele banco feito de madeira. Não chegou a sentar-se no banco. Ergueu a cabeça, limpou as lágrimas e acelerou de novo o passo. Pode ser que um dia seja apenas e só um banco que já nada tenha para lhe dizer. E continuou a andar…com um nó na garganta.
16.4.11
Spam
Estou farta de spam aqui no blogue. Acabei por decidir restringi-lo. Enviei o convite para todos, julgo.
Espero que continuem a aparecer, embora agora vos dê mais trabalho porque têm de fazer login.
14.4.11
De dentro
«Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo. Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto.»J.L.Peixoto, Antídoto
12.4.11
10.4.11
O que somos não é...
Mas há momentos, nunca o pensaste?, há momentos em que tudo se nos abisma até à fadiga. O desânimo sem fundo. A vertigem para lá de qualquer significação. Nós somos o artifício de nós. Mas é aí que construímos a legitimação de se existir. Somos duplos do que somos e por baixo da camada que nos torna plausíveis há uma outra realidade que revela o plausível em ficção. O que somos não é. O que somos é o que resta depois de tudo se dissipar. O falso de nós é que é verdadeiro. Ou ao contrário, não sei.
Vergílio Ferreira, in 'Pensar'
6.4.11
31.3.11
29.3.11
Formatações
Esta coisa da «linha que separa» irrita-me...a brincar a brincar, temos aqui toda uma ideologia de formatação...«o que separa» pressupõe o que se definiu...«o comum» e o «extraordinário», o «bonito» do «feio». Uma linha. Algo visível, definido. Não gosto disto. Aborrece-me esta ingenuidade simplista. Frases feitas que vão mesmo ao encontro dos mais incautos, ou seja, quase todos. Formatações.
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