31.5.11

What darkness is about

The depth of darkness to which you can descend and still live is an exact measure of the height to which you can aspire to reach


24.5.11

Ensinamentos

Faz hoje 11 anos que o meu pai morreu. Para além da inevitável saudade com que o recordo, lembro-me amiúde de algumas coisas que me ensinou ou, pelo menos, procurou ensinar. Coisas que, pelo facto de sermos parecidos, ele me procurava passar no sentido de eu me proteger e ser feliz. Pequenos ensinamentos. Dicas preciosas cujo alcance nem sempre estive à altura de entender, quer pela idade ou pelas circunstâncias. Há uma coisa de que em particular me lembro muitas vezes e que nos últimos tempos tem estado bem presente…o meu pai dizia-se «pensa em tudo o que dizes, mas não digas tudo o que pensas». Há coisas que devemos guardar para nós mesmos, dizia-me. O meu pai era uma pessoa espontânea, sem ser impulsiva. Quando gostava de alguém, gostava mesmo e achava que tinha de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para poder ajudar essa pessoa em qualquer circunstância. Ou seja, o meu pai era uma pessoa que se dava a poucos seres, mas que verdadeiramente se dava quando se dava. Este seu precioso ensinamento não tem sido fácil de levar a cabo, essencialmente no que diz respeito à segunda parte. Efectivamente, penso no que digo. Sem dúvida. Não sou daquelas pessoas que num dado momento e num qualquer acesso de raiva deixam que tudo lhes saia pela boca para depois mais tarde se desculparem, ou dizerem que não era bem aquilo que queriam dizer quando disseram o que disseram. Não. As coisas raramente me saem pela «boca fora». Penso no que digo. Todavia, a segunda parte do ensinamento é mais difícil de cumprir: não dizer tudo o que penso. E é óbvio que me refiro às pessoas em quem confio, pessoas que são significativas para mim, ou de quem gosto. As outras nem me ouvem falar e não fazem a mais pálida ideia do que penso ou deixo de pensar. Mas em relação às pessoas de quem gosto verdadeiramente, é difícil não dizer tudo o que penso. Entendo que se gosto delas e elas de mim, só tenho é de ser autêntica, genuína. E isto seria perfeito se as pessoas realmente me conhecessem e soubessem que tudo o que podem esperar de mim. Se assim fosse, saberiam que tudo o que lhes digo só o digo porque gosto delas e tenho um único objectivo: ajudar. Infelizmente, nem sempre é este o cenário. Há pessoas que querem que eu diga o que penso desde que o que eu penso seja o mesmo que elas pensam. Aqui as coisas complicam-se. E é nesses momentos que percebo que nem todas as pessoas de que eu gosto e que supostamente gostam de mim, querem mesmo saber o que eu penso. E, se calhar, nem merecem esta minha preocupação ou o meu cuidado, até porque estão demasiado preocupadas com elas próprias. O que eu penso não lhes interessa…não, se não for aquilo que elas pensam. Então desatam a ver intenções onde elas não existem e atiram pedras em todas as direcções, prova cabal de que não entenderam nada e, pior, que não parecem saber quem sou. Então, pergunto-me: por que lhes hei-de dizer o que penso? Pior: por que raio achei eu que elas me conheciam? Por que raio achei eu que elas iriam apreciar o que digo, ou penso, ou comento? E isto remete-me, inevitavelmente, para um outro ensinamento do meu pai, não menos verdadeiro do que anterior: «espera tudo de ti, mas muito pouco dos outros».
Adoro-te, Pai.

23.5.11

O Pasmo

Às vezes pensamos que merecíamos um beijo ou um abraço e levamos um valente estalo. Um estalo de tal maneira inesperado que ficamos ali uns segundos a tentar perceber o que aconteceu, se nos era mesmo dirigido. E então percebemos que era. Era mesmo para nós. Surpreendentemente. O que fica a doer nem é o estalo, mas o pasmo, o pasmo de pensar que tal era impossível. Mas é um «toma, que é para aprenderes». E se se aprende…da pior maneira. Uma espécie  «the wrong method, but the right effect».

17.5.11

Weird

Um cansaço. Um tédio. Um entorpecimento generalizado. Uma incapacidade de pensar claro. Uma espécie de anestesia mal dada que corta a relação com o mundo. Estou completamente descolada da realidade. Quase fantasmagórica. Etérea. Vinda não sei de onde. Os sons chegam-me diluídos, deturpados como se estivesse imersa. O pensamento está desfeito em franjas desconexas que se procuram entrelaçar. Os olhos ardem-me e pulso está basicamente indetectável. A cabeça parece-me fora do corpo e o corpo fora de mim. A caneta desliza a custo no papel desenhando uma caligrafia completamente imperceptível. Isto deve ser o que de mais perto existe de um mergulho num qualquer estado abstracto de consciência. Tudo me pesa, hoje. Como se o mundo tivesse decidido descansar sobre os meus ombros. Tudo me parece fora do sítio. Desalinhado. Imensamente turvo. Os livros nas estantes. Assimétricos. Os papéis espalhados na secretária à espera de ordem para se enfiarem em qualquer sítio longe da vista. Os dedos deslizam quase surdos sobre o teclado. Sem precisão, trapalhões e negligentes. Descansam em teclas vizinhas tornando caótica a escrita.  Arrastada. Monótona. Repetitiva. Senseless.

12.5.11

Barbed Wire



Meaning and reality were not hidden somewhere behind things, they were in them, in all of them.

Hermann Hesse

9.5.11

What If...

Outro dia, no meio de uma aula, uma aluna perguntou-me se eu achava que «a vida era feita de ‘ses’». Lembrei-me disto, hoje outra vez, quando vinha da escola e depois de uma aula que dei ao 11ºB. A pergunta da aluna voltou à minha cabeça. Lembro-me de um silêncio que se fez entre a pergunta dela e a resposta que dei. Ficou ali qualquer coisa no intervalo que eu cortei com um «não, não pode. Se for feita de ‘ses’ ficamos paralisados, prisioneiros de um passado que quer deitar cartas no futuro». Depois expliquei, claro, o que pretendia dizer com isto. A vida não pode ser feita de «ses». Nunca teremos como saber «o que seria se…». Cada decisão tomada no passado, cada simples acção define um caminho e elimina alternativas. Só ilusoriamente elas continuam lá depois de optarmos. Perdem-se para sempre. Uma palavra que se disse, outra que não se disse. O que se pensou e alterou. O que não se pensou e não interferiu. O sentir preciso daquele momento. O fluir do tempo sob a nossa impotência. O peso de pensarmos que poderia ter sido de outra forma. Mas não podia. Naquele momento preciso fizemos a única coisa que poderia ser feita, a única que parecia correcta, naquele contexto, naquela teia de momentos. «E se» eu não tivesse pensado outras possibilidades? «E se» estava a construir expectativas sobre o que idealizei? Quantas e quantas vezes estas questões martelam na nossa cabeça…inutilmente. Nunca poderemos saber e não interessaria saber mesmo que pudéssemos. Os castelos de sonhos que construímos, as imagens distorcidas que formamos na nossa mente ao sabor dos nossos desejos, da nossa vontade, do que sentimos. Nunca poderemos saber. A vida não é, nem pode ser feita de «ses». Apenas nos resta carregar com o peso do que acreditámos ser possível, mas sem o «se». Antes a mágoa, a dor, o peso. Mas não o «se». Como tão bem diria o Sartre, «não interessa o que os outros fizeram de nós, mas o que nós mesmos fazemos com o que os outros fizeram de nós». Rematei com esta frase. A banda sonora não estava disponível na aula, mas segue aqui…uma espécie de «post mortem« da aula.



8.5.11

What we mean when we mean something...


Every word is like an unnecessary stain on silence and nothingness.
(S.Beckett)



4.5.11

Radiohead

The King of Limbs, já saído há quase 3 meses não é, do meu (modesto) ponto de vista um álbum magnífico,como já não não o era In Rainbows, mas há que admitir que Radiohead consegue ainda surpreender-nos. Sobretudo, há neste álbum três músicas para cima de fabulosas, em particular este Codex que é, simplesmente, SOBERBO.

27.4.11

In Darkness Let Me Dwell

"possibly the most perfect song ever written in the English language"..."mysterious"..."awkward"....uma interpretação fora de série...daquelas que se entranham na pele...na alma...darkness and silence...who dares to listen?...

26.4.11

Apenas nada


Entre ter tudo e não ter nada, nem sempre há meio-termo, porque o meio-termo acaba por tender para o tudo, quando tudo o que nos espera é apenas nada.

Às vezes não é possível recuar, não é possível voltar atrás, porque já se percorreu um longo caminho. Às vezes não é possível voltar ao início, antes de tudo Ser, à origem, porque já não somos os mesmos do início, da origem, porque da origem se fez caminho e do caminho nasceram as diferenças.

Olhamos para o caminho percorrido e sabemos que nunca, em caso algum, podemos percorrê-lo no sentido inverso. Sabemos, igualmente, que nada há à nossa frente. Este é o ponto da imobilidade.

Não podemos recuperar o que tínhamos, porque o que temos agora é tão maior do que o que tínhamos e nunca teremos o que queríamos. É com este peso, quase insuportável, adensado por visões diferentes do que é sentir, que nascem os dias que se vêem morrer no horizonte sempre iguais.

Não há meio-termo. Tendemos, inevitavelmente, para o tudo, quando tudo o que nos espera é nada.

O caminho faz-se agora da consciência acordada do sentir que se carrega. O por fazer, o por dizer, o por ser, marcam o passo lento dos pés doridos na calçada íngreme, onde o sonho longínquo ainda faz nascer as lágrimas que se perdem na nostalgia do que não foi.

25.4.11

Scars

«We are scars of the old stream
Trailing away from the hills where we once lived».
(A.)



Não

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...


Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra (...)
(A. Campos)



24.4.11

And yet...


SIMON AND GARFUNKEL - BRIDGE OVER TROUBLED WATER por maniac-pro

23 km de sentido


De manhã. Não muito cedo, mas ainda cedo. Saio para correr. Cruzo-me com pessoas que se dirigem ou para a missa, ou para o cemitério. De roupas novas engomadas, enfeitiçadas pela crença e deliciosamente enganadas e perdidas: as primeiras, porque procuram deus onde ele não está e lhe pedem o que elas não procuram com as próprias mãos; as segundas, porque acreditam que os seus entes queridos estão entre aqueles muros. Quase uma heresia passar a correr por entre estas pessoas que me olham desconfiadas. «Esta aqui anda perdida», pensarão. Claro que sim! A diferença é que eu sei disso e eles não
Não saio, desta vez, com destino nem distância marcados, mas apenas um objectivo: superar-me. Sempre. Este tempo de corrida é o tempo da liberdade por excelência. Sentir o chão ficar para trás sob a passada rápida dos meus pés quando How To Destroy Angels (que irónico!), no mp4, marca o ritmo e define o horizonte: mais além. É ali, naquele tempo, que mente e corpo se unem com um único objectivo: o de se entregarem ao limite, lá onde o sofrimento está apenas nas minhas mãos e onde a entrega é a opção genuína e solitária. Não vacilar. Não ceder. Menos tempo. Maior distância. Mais equilíbrio. Mais ritmo. O vento dificulta a passada e o suor escorre pelo rosto e pelos braços, deixando uns pingos como rasto. 23 km de sentido e de esforço de superação, marca do poder da determinação. Há sentido em 23km. Nem que ele fique aí encerrado, preso à passada e aos pés. «A dor é inevitável, mas o sofrimento é uma opção», dizia Murakami.



23.4.11

..E não ao contrário




«Crer para ver»
V. Ferreira, Pensar

19.4.11

Nó Cego


O nó cego é um daqueles nós que em criança nos ensinaram a não fazer, porque é um nó extremamente instável que tanto pode facilmente soltar-se como, ao invés, se tornar irreversível, impossível de desatar, ou seja, quer num caso quer no outro, não cumpre a sua função: no primeiro, nada chega a atar com segurança; no segundo, não permite libertar o que se atou. Deveríamos dar sempre nós simples . Estes são sempre reversíveis e cumprem a sua função. E isto deveria aplicar-se a tudo na vida, a tudo o que atamos, desde o cordão de um sapato, a uma linha, ou a uma pessoa, ou a um sentimento, uma ideia. Todavia, por motivos vários que levariam anos a discutir, damos por nós a tecer nós cegos numa versão terrivelmente definitiva. Damos nós que não se desatam. Estragamos o atacador do sapato que, num acto de desespero cortamos. Damos um nó na linha que, num acesso de raiva arrancamos com os dentes. Mesmo assim, não foi o nó que desatámos, a mas a nossa impossibilidade de o desatar. Arrancamo-lo daquele sítio, mas ele não se desatou. Todavia, esta estratégia não é aplicável às ideias, aos sentimentos, às pessoas. Neste caso não conseguimos cortar coisa alguma, embora possamos ter a ilusão de o podermos fazer, fazendo de conta que esses nós não existem. Mas existem. Estão lá e não se desatam. Como uma sombra perseguem-nos para todo o lado e, como uma sombra, não são visíveis nem para nós, nem para os outros, mas nem por isso menos presentes. E não adianta muito nos detestarmos pelos nós cegos que damos, por termos acreditado e nos sentirmos desiludidos pelas expectativas que (nós) criámos. Podíamos não ter atado coisa alguma. Mas atámos, com a segurança ingénua dos nossos dedos, e o nó é cego. Resta-nos aprender alguma coisa com isso. Resta-nos aprender a não dar nós ou a não nos aventurarmos para além dos nós simples que cumprem a sua função. Não nos podemos libertar dos nós cegos, porque não temos como desatá-los.