Faz hoje 11 anos que o meu pai morreu. Para além da inevitável saudade com que o recordo, lembro-me amiúde de algumas coisas que me ensinou ou, pelo menos, procurou ensinar. Coisas que, pelo facto de sermos parecidos, ele me procurava passar no sentido de eu me proteger e ser feliz. Pequenos ensinamentos. Dicas preciosas cujo alcance nem sempre estive à altura de entender, quer pela idade ou pelas circunstâncias. Há uma coisa de que em particular me lembro muitas vezes e que nos últimos tempos tem estado bem presente…o meu pai dizia-se «pensa em tudo o que dizes, mas não digas tudo o que pensas». Há coisas que devemos guardar para nós mesmos, dizia-me. O meu pai era uma pessoa espontânea, sem ser impulsiva. Quando gostava de alguém, gostava mesmo e achava que tinha de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para poder ajudar essa pessoa em qualquer circunstância. Ou seja, o meu pai era uma pessoa que se dava a poucos seres, mas que verdadeiramente se dava quando se dava. Este seu precioso ensinamento não tem sido fácil de levar a cabo, essencialmente no que diz respeito à segunda parte. Efectivamente, penso no que digo. Sem dúvida. Não sou daquelas pessoas que num dado momento e num qualquer acesso de raiva deixam que tudo lhes saia pela boca para depois mais tarde se desculparem, ou dizerem que não era bem aquilo que queriam dizer quando disseram o que disseram. Não. As coisas raramente me saem pela «boca fora». Penso no que digo. Todavia, a segunda parte do ensinamento é mais difícil de cumprir: não dizer tudo o que penso. E é óbvio que me refiro às pessoas em quem confio, pessoas que são significativas para mim, ou de quem gosto. As outras nem me ouvem falar e não fazem a mais pálida ideia do que penso ou deixo de pensar. Mas em relação às pessoas de quem gosto verdadeiramente, é difícil não dizer tudo o que penso. Entendo que se gosto delas e elas de mim, só tenho é de ser autêntica, genuína. E isto seria perfeito se as pessoas realmente me conhecessem e soubessem que tudo o que podem esperar de mim. Se assim fosse, saberiam que tudo o que lhes digo só o digo porque gosto delas e tenho um único objectivo: ajudar. Infelizmente, nem sempre é este o cenário. Há pessoas que querem que eu diga o que penso desde que o que eu penso seja o mesmo que elas pensam. Aqui as coisas complicam-se. E é nesses momentos que percebo que nem todas as pessoas de que eu gosto e que supostamente gostam de mim, querem mesmo saber o que eu penso. E, se calhar, nem merecem esta minha preocupação ou o meu cuidado, até porque estão demasiado preocupadas com elas próprias. O que eu penso não lhes interessa…não, se não for aquilo que elas pensam. Então desatam a ver intenções onde elas não existem e atiram pedras em todas as direcções, prova cabal de que não entenderam nada e, pior, que não parecem saber quem sou. Então, pergunto-me: por que lhes hei-de dizer o que penso? Pior: por que raio achei eu que elas me conheciam? Por que raio achei eu que elas iriam apreciar o que digo, ou penso, ou comento? E isto remete-me, inevitavelmente, para um outro ensinamento do meu pai, não menos verdadeiro do que anterior: «espera tudo de ti, mas muito pouco dos outros».
Adoro-te, Pai.