(uma espécie de resposta avant-garde à Daniela Fernandes...)
Não somos complexos; somos complicados. E é isto que nos torna humanos. Estás a ver, Daniela? Lá vamos nós dar ao mesmo. Somos os únicos seres capazes de pôr termo à vida e isso é o que nos torna estupidamente diferentes ou especiais. Porquê?? Porque somos complicados. Ponto. É que ser «complexo» dá-nos a ideia de um ser superior, misterioso, pleno de insondáveis, estranho, esquisito. Agora, ser complicado é muito mais chato!!! É claro que é mais cool dizer que se é complexo. Mas o que somos é mesmo complicados, senão, vejamos: passamos um tempo infinito a lamentarmo-nos do que somos, do que temos, querendo ser os outros, querendo ser ninguém, ansiando o que não temos, desejando ter o poder de mudar as circunstâncias que nos fizeram na esperança de mudarmos o que somos, enfim....uma choradeira. É o cabelo que é horrível, os dentes que são amarelos, a inteligência que deixa muito a desejar, os dedos que são pequenos, a unha encravada, as pernas tortas, o pequeno buço que ameaçada transformar-se numa bigodaça…whatever…uma lástima. No meio de toda esta tragédia ainda somos nós! Às vezes lá nos apanhamos paradoxalmente orgulhosos do que somos e tal, «eu sou mais eu» na tentativa de nos autoconvencermos disso. Uma espécie de minimanual de auto-ajuda que faz parte do providencial «kit de sobrevivência» com a natureza (divina ou não) nos criou. E eis que um fulaninho que não conhecemos de lado algum nos aborda com um «desculpe estar a reparar em si, mas é demasiado bonita». O quê???? Quem é este palhaço? Está parvo ou faz-se? Estas perguntas passam pela nossa cabeça todas em catadupa numa fração de segundos e numa fração de segundos pensamos se vamos dar-lhe um murro no meio dos olhos, espetar-lhe um balázio, insultá-lo ou pregar-lhe um valente estalo, como nos filmes! Mas eis que anos e anos de educação espartana substituem o balázio por qualquer coisa como « ah! Não é bem assim, mas agradeço na mesma!!». Estas palavras são acompanhadas por um sorriso amarelo e um olhar gélido que cospe faíscas. Afastamo-nos daquela situação incómoda. Estamos furiosos. Mas que é isto? Está o fulano a gozar, ou o quê? Curiosamente, até que gostamos do comentário, mesmo achando que o fulano vê mal, porque não somos nada do que ele disse. Ficamos ainda mais irritados porque até nos fez bem ouvir aquilo, mesmo sabendo que não é assim. Portanto, as mentiras parece que nos fazem bem, a ver pelo caso. E ficamos ainda mais irritados, porque percebemos que uma mentira nos fez, no fundo, sentir bem. Somos complicados. Depois, mais tarde, no café, uma grande amiga diz-nos que somos insuportáveis, que temos um péssimo feitio e que mais vale falar para uma porta. O quê? Esta fulana está boa? Então não é suposto conhecer-me? Novamente a educação espartana entra em ação e em vez de mandarmos a amiga às urtigas saímo-nos com um enunciado hermético:« Não estou para ouvir isto. Lamento. Tenho de ir embora». E assim abandonamos a mesa do café dirigindo-nos em passo rápido para a saída. Também não gostámos do comentário; desta vez, porque não nos favorece. Mas afinal, o que é que queremos?
Moral da história nº1: nunca queremos ouvir o que colide com o que pensamos. Se é positivo, mas não coincide com a forma como nos vemos é um «deve estar parvo, este fulano!»; se é negativo e não coincide com o que pensamos é um «deve estar parva, esta fulana!». Em qualquer um dos casos entendemos que o que pensamos é que está certo. Ponto. Portanto, ou os outros dizem o que queremos ouvir, ou julgamos ser verdade, ou «estão parvos!».
Moral da história nº2: as mentiras que colidem com o que pensamos, mas que nos favorecem, são incomodamente irritantes; as verdades que colidem com o que pensamos e não nos favorecem são irritantemente incómodas.
Moral da história nº3: a conversa da auto-estima é uma treta. Ninguém pode fazer nada por nós a não sermos nós mesmos. Ninguém pode levantar a nossa auto-estima, justamente porque é nossa (a designação é clara e nada complicada deste ponto de vista, se bem que o conceito seja complexo). Se queremos mudar alguma coisa, temos de começar por nos mudar a nós mesmos, ou viveremos a chispar pelos olhos o sentir que nos vai na alma.
Somos complexos? Não. Somos complicados.